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Não, Luciano. Você está enganado.

No último sábado, o apresentador Luciano Huck, durante seu programa semanal, incorreu em um erro bastante grave ao comparar a derrota sofrida pela Seleção Brasileira de Futebol, de 7 a 1, pela seleção alemã, aos atentados terroristas de 11 de setembro. Luciano revelou, naquele momento, uma enorme falta de sensibilidade, mas não apenas isso: revelou ainda uma enorme falta de conhecimento histórico.

Por não ser um grande fã de esportes, não posso oferecer aqui dados e estatísticas sobre o futebol, mas posso dizer que, tendo sido o Brasil o único país a participar de todas as copas, e tendo sido a Copa 2014 a vigésima copa realizada, a seleção canarinho tem 25% de êxito absoluto: cinco títulos nesses vinte torneios. Posso ainda dizer que, como torcedor eventual, senti, junto aos 200 milhões de brasileiros, raiva, tristeza e frustração, um misto de sentimentos durante a partida que se revelou o pior placar de nosso futebol em toda a história.

Mas, ao comparar aqueles noventa minutos em campo com as ocorrências do dia 11 de setembro de 2001, Luciano Huck erra. E erra feio. Vasco Rato em seu livro “Compreender o 11 de setembro”, explica a cronologia dos setenta e sete minutos que duraram os ataques aos Estados Unidos: “A precisão e a coordenação dos ataques tornaram o atentado ainda mais surpreendente. Quatro aviões comerciais são sequestrados por 19 militantes da al-Qaeda. Às 8h46, o voo 11 da American Airlines se choca contra a Torre Norte do World Trade Center. Escassos minutos depois, às 9h03, o voo 175 da United Airlines se choca contra a Torre Sul. Meia hora depois, em Washington, o voo 77 da American Airlines se choca contra o Pentágono. Às 10h03, o voo 93 da United Airlines cai num descampado na Pensilvânia; presume-se que os terroristas o encaminhavam para a Casa Branca ou, mais provavelmente, o Capitólio.”

O crítico Luiz Costa Lima, ao revisitar o conceito de mímese de Aristóteles faz a seguinte colocação: “um recurso da mímese trágica é o efeito de surpresa, que, mesmo inverossímil, pode parecer verossímil, porque é verossímil que aconteçam coisas inverossímeis”. E assim foram os ataques. Inverossímeis, surpreendentes.

Os atentados de 11 de setembro, não somente marcaram o início de um novo momento histórico nos Estados Unidos da América, o da Guerra ao Terror, como também se tornaram tema de publicações em diversos suportes e línguas em todo o mundo.

Naquele dia, quatro aviões comerciais foram sequestrados por terroristas ligados à rede Al-Qaeda. Dezenove homens foram transformados em armas e aterrorizaram todo o país, por meio de ataques ao World Trade Center e ao Pentágono. Um outro avião caiu em um campo na Pensilvânia, pois seus passageiros enfrentaram os terroristas que haviam sequestrado a aeronave, cujo alvo era, provavelmente, a Casa Branca ou o Capitólio. Este se constituiu no maior atentado contra os Estados Unidos em seu próprio território. Foram contabilizados 2.997 mortos.

Considerando a imediata mudança de sentido que o termo “segurança” sofre dentro da sociedade americana, a partir da primeira notícia de que o choque entre aviões comerciais e torres do World Trade Center havia sido planejado por um grupo terrorista, essa variação estilhaça a ideia anterior da invulnerabilidade dos Estados Unidos, e exprime, em imagens aparentemente “cinematográficas”, saídas de uma produção de Hollywood e não de uma cena real, uma catastrófica realidade a ser absorvida pelo público, de forma bastante cruel. O filósofo Noam Chomsky, em entrevista concedida ao jornal italiano Il Manifesti no dia 19 de setembro de 2001 afirma: “As horripilantes atrocidades cometidas em 11 de setembro são algo inteiramente novo na política mundial”.

Após o 11 de setembro, diante do desgaste sofrido pelas autoridades públicas, CIA e FBI, três pontos foram considerados prioritários pelo governo americano: 1) proteger os Estados Unidos de ataques terroristas; 2) proteger os Estados Unidos de operações de inteligência estrangeira e espionagem; e 3) proteger os Estados Unidos de ataques cibernéticos e de crimes de alta tecnologia. E assim, foi criado o Ato Patriótico, lei que mais rapidamente traminou no Congresso Americano em toda história, que entre outras medidas, diminui os direitos civis do cidadão norte-americano. O filósofo Zygmunt Bauman em seu livro “Medo Líquido”, critica duramente o Ato Patriótico, e trata do modo como os ataques terroristas de 11 de setembro e os desdobramentos para a sociedade civil americana foram, sob o ponto de vista de difundir o terror, bem sucedidos: “Se o propósito dos terroristas é espalhar o terror entre a população inimiga, o exército e a polícia dos inimigos certamente vão assegurar que esse objetivo seja atingido num grau muito maior que o nível ao qual os terroristas seriam capazes de alcançar”.

Assim, tendo passado a surpresa e a decepção com a nossa seleção, e tendo a Copa do Mundo terminado e nossas vidas voltado ao normal, sem terror nem traumas, não podemos afirmar ou sequer permitir que se afirme que um jogo de futebol, seja comparado aos ataques terroristas de 11 de setembro, com saldo de tantas mortes e destruição.

Artigo original publicado na página 4C da edição do dia 19 jul 2014 do jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto, SP.

Não, Luciano. Você está enganado. - João Paulo Vani