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Antissemitismo, Antissionismo e Holocausto

Desde o dia 8 de julho o mundo está novamente atento ao desenrolar da guerra envolvendo a posse territorial da Faixa de Gaza. Não que esse seja um assunto novo, longe disso. Para alguns, essa disputa remonta os anos de 1947, quando a ONU, a pedido do Reino Unido elaborou um plano de divisão do território do Mandato Britânico da Palestina; ou de 1967, quando após 11 anos de tensão desde a Crise do Suez, o Estado-Maior de Israel deflagrou a Guerra dos Seis Dias, em oposição à aliança árabe formada por Síria, Egito e Jordânia, e apoiada pelo Iraque, Kuwait, Argélia, Arábia Saudita e Sudão. Para outros, entretanto, a disputa remonta os tempos bíblicos, e retoma a divisão da herança de Abraão entre Israel e suas doze tribos e Ismael e seus doze príncipes. Além disso, sabemos que as questões envolvidas nessa guerra não são apenas geográficas.

De todo modo, este artigo não tem a pretensão de elaborar um panorama histórico dessa disputa nem tampouco apontar erros e acertos entre as partes, ou ainda, de justificar as atrocidades cometidas em tempos de guerra. O objetivo aqui é apenas elucidar alguns conceitos que estão sendo recorrentemente confundidos. As manifestações antissionistas não são, em sua totalidade, antissemitistas; o antissemitismo é uma forma de manifestação de racismo, o mesmo racismo que vitima negros, homossexuais, deficientes, nordestinos, cristãos, islamitas e árabes. Por fim, o que acontece atualmente em Gaza não pode ser visto como o Holocausto perpetrado pelos judeus aos palestinos. Se os acontecimentos atuais serão classificados como genocídio, a história dirá, assim como o fez nos episódios envolvendo os armênios, os ucranianos, e tantos outros.

Sendo o antissemitismo manifestação de preconceito cultural, étnico e religioso contra o povo judeu e pode ser percebida em situações de ódio e discriminação contra indivíduos e comunidades de origem judaica, sejam essas manifestações realizadas por um único homem, por políticas públicas ou por ataques militares. De acordo com Roberto Wistrich, em entrevista concedida ao jornalista Marcelo Ninio, da Folha de São Paulo, no dia 26 de março de 2012, “De todos os tipos de ódio, e há muitos, o antissemitismo é o mais antigo. Remonta a 2 mil anos, a idade da diáspora judaica. O certo seria usar o termo ódio antijudeu, ou judeofobia.”.

O antissionismo, por sua vez, envolve a contrariedade às ideologias defendidas pelo sionismo, inclusive ao estado judeu, mas não apenas. O antissionista é um opositor à política, à moral e à religião judaica. Opositores ao governo de Israel frequentemente fazem uso do termo “antissionismo”, o que leva a uma identificação e fácil confusão com o termo “antissemitismo”, que conceitualmente são diferentes. É ainda bastante comum o uso de variados argumentos , por parte dos apoiadores da causa judaica, que todo antissionista é um antissemita. E, nesse caso, é preciso cautela, pois uma divergência ideológica não necessariamente deva se reverter em racismo. Não de modo tão simplista.

O Holocausto, genocídio perpetrado pelo Estado Nazista aos judeus e outras minorias durante a Segunda Guerra Mundial, resultou em cerca de 6 milhões de vítimas daquele que possivelmente tenha sido o maior extermínio em massa da história da humanidade. De acordo com o crítico literário Márcio Selligman-Silva, na obra História, Memória, Literatura, “Auschwitz pode ser compreendido como uma das maiores tentativas de ‘memoricídio’ da história. Os sobreviventes e as gerações posteriores defrontam-se a cada dia com a tarefa de rememorar a tragédia e enlutar os mortos.”.

As motivações, ainda que possam ter sido políticas e econômicas, tiveram como resultado o assassinato de cerca de dois terços dos judeus que viviam na Europa, e de suas histórias de vida. É de fundamental importância que essa temática seja sempre retomada, de modo que não se permita, jamais, que o Holocausto caia no esquecimento; que as novas gerações tenham conhecimento da desumanidade impingida ao povo judeu e, mais que isso, que não se permita a articulação de correntes negacionistas, que dão conta de que o Holocausto não aconteceu. De acordo com Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus, em seu livro Anti- semitismo e nacionalismo, negacionismo e memória, no Brasil, o movimento negacionista mais sólido foi difundido por Siegfried Ellwanger, de 1987 até 2003. Tendo adotado o pseudônimo de S. E. Castan, Siegfried lançou, em 1987, pela Editora Palloti, o livro Holocausto – judeu ou alemão?. Logo após o lançamento da obra, teria fundado, em Porto Alegre, a Revisão Editora, pela qual lançou diversas outras obras defendendo o antissemitismo e, principalmente, a negação do Holocausto.

Independente dos conceitos, a guerra que atualmente acontece em Gaza não será facilmente solucionada. É necessário que os dois lados estejam dispostos ao diálogo e, talvez, que concordem em eleger um interlocutor. Esperamos que, no futuro, as novas gerações de líderes possam, através do resgate histórico dos horrores das guerras passadas – e desta guerra presente, evitar novos embates e mais atrocidades e derramamento de sangue.

Artigo original publicado na página 4C da edição do dia 02 ago 2014 do jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto, SP.

Antissemitismo, Antissionismo e Holocausto - João Paulo Vani