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Auschwitz: 70 anos depois

Nesta semana, entidades de todo o mundo celebraram os 70 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, empreendida por tropas soviéticas no dia 27 de janeiro de 1945.

Há quem diga que o Exército Vermelho não estava preparado para libertar Auschwitz. A jornalista Clara Barata, em artigo veiculado no dia 27 de janeiro pelo jornal “Publico”, de Portugal, revelou as memórias do tenente Vasili Gromadski, da 100.ª Divisão de Atiradores, que participava na ofensiva do Vístula-Oder, que havia de chegar a Berlim no fim de Abril de 1945: “Demos por acaso com o campo de extermínio”. “Nos mapas [das tropas soviéticas], de antes da guerra, nem sequer constava este extenso campo de morte e de trabalhos forçados do regime nazista.

O regime de Hitler na Alemanha foi responsável pelo maior genocídio da História, denominado Holocausto. Ainda que os números dessa barbárie sejam bastante imprecisos, acredita-se que durante a II Guerra Mundial, tenham morrido até 72 milhões de pessoas.

Uma vez no comando da Alemanha, Hitler colocou diante de sua mira todos aqueles que não se encaixavam nos padrões por ele definidos como satisfatórios, na busca insana pela pureza da raça ariana. Somente em Auschwitz estima-se que tenham sido executados entre 10 mil e 20 mil homossexuais, prisioneiros políticos e testemunhas de Jeová; pelo menos 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos; cerca de 20 mil ciganos; 140 mil poloneses e 1,1 milhão de judeus. Negros e deficientes físicos também foram executados pelo regime nazista.

O historiador Roney Cytrynowicz, em artigo sobre o estudo do Holocausto publicado em 2000, alerta o quanto lembrar desse episódio da história tem se tornado cada vez mais um imperativo moral e político, permitindo maior compreensão sobre o quanto as ações de Hitler contra os judeus configurou como evento central de toda destruição tornada possível no século 20. “Ao mesmo tempo é importante pensarmos e problematizarmos as formas de lembrar, os registros da memória e da história, de forma que o Holocausto seja lembrado e problematizado para que possamos constituir mais ferramentas para construir a democracia”, completa o pesquisador.

É preciso lembrar, ainda, que, embora a Alemanha tenha liderado um bloco de países com ideais antissemitas durante a Segunda Guerra Mundial, o povo alemão sofreu as consequências dessa guerra da mesma forma que outros povos. E assim, em mais uma demonstração desse sentimento, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, participou, ao lado de sobreviventes do Holocausto, de evento realizado pelo Comitê Internacional de Auschwitz na segunda-feira, dia 26 de janeiro. Em seu pronunciamento, Angela Merkel reafirma que o que aconteceu em Auschwitz é “algo que enche os alemães de vergonha, foram os alemães que cometeram os crimes que representaram uma ruptura da civilização”.

Rememorar o Holocausto e celebrar a libertação de Auschwitz é de fundamental importância não apenas para que o horror cometido pelo regime de Hitler não seja esquecido, mas também – e principalmente – para que não existam brechas para o movimento negacionista, aquele que tenta produzir argumentos que dão conta que o Holocausto não aconteceu.

De acordo com o historiador Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus, no Brasil, esse movimento teve um forte representante, que em um de seus livros chega a colocar em dúvida a veracidade “de documentos e testemunhos utilizados para incriminar os nazistas e, como não poderia ser diferente, questiona a existência das câmaras de gás, o número de judeus mortos, a eliminação sistemática nos campos de concentração. O autor estudado por Jesus “atribui a responsabilidade da guerra aos judeus, acusando-os de arquitetar um plano sionista para dominar os meios de comunicação, a economia e a política”.

Que as novas gerações, ao descobrirem o horror 70 anos após seu fim, e perguntarem aos mais velhos sobre o que aconteceu em Auschwitz, possam receber informações claras sobre o mais obscuro lado da natureza humana: sim, aquilo tudo aconteceu. Somente assim formaremos cidadãos preparados para não permitir que um novo ciclo como o Holocausto volte a acontecer.

Artigo originalmente publicado na página 5C do dia 31 jan 2015 do jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto-SP.

Auschwitz: 70 anos depois - João Paulo Vani