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A formação do hábito

Na edição do dia 12 de abril, o jornal “Diário da Região” estampou em sua capa a seguinte manchete: “Rio Preto está esquecendo seus livros e deixando de ler”. A bela matéria assinada pelo jornalista Raul Marques revela o quanto o fluxo de pessoas tem diminuído nas Bibliotecas Municipais de São José do Rio Preto. E essa é uma péssima notícia. Entretanto, na mesma edição, os leitores foram contemplados com a cobertura da inauguração da Biblioteca Comunitária “Formando Leitores”, sonho de uma menina de 10 anos, Kaciane Caroline, tornado realidade no último dia 11 de abril.

Interessante notar o quanto essas notícias revelam realidades discrepantes. De um lado, temos um acervo de mais de 50 mil exemplares, deixado de lado pela população, seja pela falta de atualização – de competência do poder público local, seja por qualquer outra justificativa que o público encontre para justificar sua pouca motivação para a leitura, para os prazeres que a atividade possa dar. De outro, temos uma menina imbuída de um sonho: ter uma biblioteca, mas não apenas para ela. O sonho de Kaciane era ter uma biblioteca comunitária, de modo que pudesse mudar não apenas o próprio destino através do conhecimento e da instrução, mas que pudesse mudar o destino de toda uma comunidade. E esse tipo de iniciativa não é nova…

No século XIX, membros da colônia portuguesa envolvidos com as atividades do Real Gabinete Português de Leitura, com o objetivo de atrair mais leitores para um espaço que já caia em esquecimento, fundou o Liceu Literário Português, cujo objetivo era difundir a cultura e oferecer oportunidades de ensino, especialmente para os jovens imigrantes portugueses na cidade do Rio de Janeiro, que em geral chegavam com pouca instrução ao país. A difusão do conhecimento e o fortalecimento da importância da leitura para aquela comunidade foram fundamentais para a criação de um habitus.

O conceito de habitus foi desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu com o objetivo de esclarecer elementos que permeiam a delicada relação entre indivíduo e sociedade dentro da sociologia estruturalista e está relacionado à capacidade de uma determinada estrutura social ser incorporada pelos agentes por meio de disposições para sentir, pensar e agir.

Motivar a criação de um habitus, como fez o Real Gabinete Português de Leitura ao fundar o Liceu Literário Português leva a sociedade a novas escolhas coletivas, como transitar com naturalidade por um espaço de instrução, ou ter prazer na leitura.

E, em Rio Preto, o que podemos agora acompanhar de perto, é uma iniciativa nascida de um sonho de uma menina de apenas 10 anos que, por meio das palavras do jornalista Raul Marques, foi projetada em toda a sociedade rio-­‐ pretense, e mais que isso, um sonho que, com o apoio do professor Pedrinho Acquaroni, docente com mais de quarenta anos de sala de aula, sabedor da importância da leitura e do conhecimento na vida de uma comunidade, se tornou realidade.

São José do Rio Preto poderá, com a chegada da Biblioteca Comunitária “Formando Leitores”, perceber o impacto do desenvolvimento cultural em uma comunidade que, sem o apoio da sociedade civil, talvez não tivesse a mesma oportunidade de acesso ora encontrada. O mesmo procedimento realizado pelos membros da colônia portuguesa no século XIX, no Rio de Janeiro.

Ao poder público local resta planejar ações efetivas que levem à ampliação do número de cidadãos dispostos a buscar conhecimento nos espaços públicos destinados à essa finalidade.

Para tanto, não bastam ações isoladas referentes à área cultural, como adquirir livros novos, ou o que envolve as autoridades policiais de nosso município, como aumentar o esquema de segurança no entorno das bibliotecas. É necessário que as mais áreas sejam envolvidas, de modo que a leitura – e o livro – sejam vistos como importante ferramenta na escola; sejam vistos como alternativa acessível de lazer, capaz de ampliar o autoconhecimento, diminuir o stress, desenvolver o pensamento crítico, entre tantos outros benefícios.

Artigo originalmente publicado na página 5C do dia 18 abr 2015 do jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto – SP.

A formação do hábito - João Paulo Vani