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Terror na França

Na noite de 14 de julho de 2016, os franceses comemoravam o feriado do Dia Nacional, em memória ao marco histórico da Tomada da Bastilha, que dentre as tradicionais celebrações, tem a queima de fogos de artifício. Foi nesse ponto da festa que um caminhão protagonizou mais um ato terrorista – agora em Nice, o quinto na França, em apenas 18 meses. Enquanto escrevo este artigo, a imprensa internacional dá conta de 84 mortos e 50 feridos em estado grave.

Quem poderia imaginar que um caminhão seria instrumento para um ataque terrorista? Infelizmente, ninguém. Assim como também não foi possível prever que em 11 de setembro de 2001, dois aviões comerciais seriam usados como mísseis para destruir aos Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, fazendo 2977 pessoas.

Há enorme simbolismo na data escolhida para o ataque, pois um dos “produtos” da Revolução Francesa é justamente a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que junto com a pioneira Carta dos Direitos inglesa, promulgada um século antes, em 1689, e a Carta dos Direitos dos Estados Unidos, de 1791, serviram de base à Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU em 1948, e ainda vigente, que em seu artigo primeiro revela o lema da Revolução Francesa – Liberté, Egalité, Fraternité (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) – e define: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.

Noam Chomsky, filósofo da linguagem, define terrorismo como “o uso calculado da violência ou da ameaça de violência para atingir objetivos políticos, religiosos ou ideológicos em sua essência, sendo isso feito por meio de intimidação, coerção ou instilação do medo”.

Por sua vez, o filósofo Zygmunt Bauman, na obra “Medo líquido”, apresenta o medo e o mal como sendo “irmãos siameses”: “Não se pode encontrar um deles separado do outro. O que tememos é o mal; o que é mal, nós tememos.”

E é exatamente esse que acredito ser o sentimento do povo francês nesse momento, vivendo a “sensação de angústia, ao lado de uma prontidão incerta – exatamente a intenção dos terroristas”, como explicou o filósofo Jürgen Habermas na ocasião dos atentados de 11 de setembro.

Não se pode esquecer, porém, que os ataques vêm sendo brutal e levianamente perpetrados, de diferentes formas, em nome de uma crença que prega paz. Sim, o Islamismo prega a paz, assim como o Cristianismo, o Judaísmo, e me detenho aqui apenas às religiões abraâmicas. E ter seguidores fundamentalistas não é exclusividade desta ou daquela crença, basta que todos se lembrem das Cruzadas e da Inquisição.

Jacques Derrida, filósofo francês nascido na Argélia, define o perdão incondicional como a tarefa impossível de perdoar o imperdoável. Esse é o tipo de perdão que se deve oferecer agora aos propagadores do mal: o perdão incondicional, pois não existe punição proporcional que possa reparar o mal que o terrorismo tem feito ao mundo.

Fonte: Diário da Região

Terror na França - João Paulo Vani