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‘1984’ vs. Donald Trump

O celebrado romance distópico, “1984”, do autor britânico George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, foi concluído no ano de 1948 e publicado em 1949. A obra retrata o cotidiano da sociedade que vive, no ano de 1984, sob um regime político totalitário e repressivo. No livro, Orwell mostra como um regime oligárquico coletivista é capaz de reprimir qualquer um que a ele se opuser.

O romance de Orwell se tornou famoso por retratar a constante e irrestrita fiscalização e controle exercidos pelo governo sobre a vida dos cidadãos, o que acaba por gerar forte impacto nos direitos do indivíduo. Com a repercussão da obra, muitos de seus termos e conceitos, como “Big Brother”, “duplipensar” e “Novilíngua” foram incorporados à língua corrente.

Próximo ao seu aniversário de 70 anos, a obra de Orwell se viu novamente em destaque, quase como que “redescoberta” pelos leitores e, desde a posse do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se tornou um best-seller. De acordo com a edição do dia 25 de janeiro, apenas cinco dias após a posse do novo presidente americano, 1984 havia registrado um aumento de 9.500% nas vendas. Mas, o que pode ter ocasionado essa corrida às livrarias?

Em primeiro lugar, é importante destacar que “1984”, último romance de Orwell, é uma ficção distópica, e a distopia é o avesso da utopia, ou seja, não retrata aquilo que desejamos, o positivo, e sim o que tememos, o negativo. Pode-se atribuir o aumento nas vendas da obra ao ambiente de medo que se cria diante das incertezas que a gestão Trump traz ao mundo, dentre as quais, a possibilidade de privação dos direitos individuais, consequência dos regimes totalitários. E, devemos ressaltar: esse medo vem sendo provocado pelo próprio Trump.

O livro de George Orwell é o resultado da vivência de um escritor inserido em um contexto de enormes mudanças, ocorridas entre o final do século 19 e primeira metade do século 20. Naquele período, o Império Britânico via seu poderio econômico se abalar, sobretudo após a Primeira Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos surgia como nova promessa de império. O mundo mudava rapidamente. Surgiram as teorias de Darwin, Marx, Freud, Einstein. Diante de tantas mudanças, Orwell passa a acreditar que a tecnologia poderá se tornar uma ferramenta de controle e repressão. Por essa perspectiva, a sociedade se torna fragilizada. A repressão política e social são práticas comuns em quaisquer regimes totalitários, de esquerda ou de direita. A sociedade pode ter acesso a isso na segunda metade do século 20, diante das narrativas vindas das extintas União Soviética e Alemanha Oriental, de Cuba e Coreia do Norte. E, neste momento, com sua gestão prestes a completar 100 dias, e muitas polêmicas e mudanças em questões que tocam no protecionismo da nação, acredito que seja esse o grande questionamento em torno do governo Trump: a eventual adoção de uma postura totalitária.

Ao que parece, existe neste momento um movimento de mudança mais à direita no espectro político mundial, seja com à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos ou com a saída do Reino Unido da União Europeia; seja com a ascensão de líderes políticos de direita em toda a Europa: Áustria, Dinamarca, Holanda, Suécia e França, com Marine Le Pen consolidada como uma das candidatas favoritas para as eleições que acontecem no próximo dia 23 de abril, e para entender melhor essas mudanças, as pessoas estão buscando a arte.

A literatura é uma expressão artística e, como tal, acaba por retratar criticamente o contexto no qual o escritor está inserido. As relações encontradas nas obras literárias, que envolvem política, direito, economia, são fundamentais para que o indivíduo possa compreender o presente e o passado, bem como possa se preparar para o futuro, o que parece, exatamente, estar acontecendo.

A literatura tem ainda a capacidade de auxiliar o indivíduo na compreensão da história ou no aprofundamento de fatos cotidianos que são convertidos em fatos históricos. O distanciamento de alguns anos de episódios como as Guerras Mundiais, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, o 11 de setembro, dentre tantos outros, permite aos escritores produzir narrativas capazes de levar o indivíduo à reflexão e maior compreensão de tais fatos. Além disso, quando uma obra literária passa a ser associada a um fato recente, como estão “1984” e a gestão Trump, sem dúvida gera curiosidade, e o mercado editorial fica aquecido: o interesse por uma obra literária específica pode levar o leitor, agora estimulado, a buscar novas leituras.

Fonte: Debate Acadêmico – Unesp

‘1984’ vs. Donald Trump - João Paulo Vani