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O Holocausto e a Medicina

No dia 27 de janeiro de 1945, o exército soviético libertou de Auschwitz cerca de 7 mil prisioneiros, dentre os quais, 700 crianças.
Hoje, este dia é lembrado como o “Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto”. Como aconteceu com as demais ciências, a Medicina foi utilizada em favor da ambição desumana e preconceito que cegou a sociedade da época com teorias racistas.

Quem vai contar essa história para gente é João Paulo Vani, um grande especialista em memória do Holocausto. Para mais informações sobre João Paulo, mestre em Teoria Literária, e acesso a artigos sobre esse tema e diversos outros, curta e siga sua fanpage e perfil profissional em: https://www.facebook.com/jpvanioficial/ e https://www.facebook.com/pg/jpvanioficial/about/?ref=page_internal

Segue a entrevista:

[CINESE]: João Paulo Vani, de que forma podemos entender o Holocausto na visão da Medicina?

[JOÃO PAULO VANI]: Compreender o Holocausto judeu é, primeiramente, estar disposto a mergulhar no horror, é descobrir o que de pior se registrou nos anais da Humanidade. E a sensação não é diferente quando pensamos nas “pesquisas” médicas realizadas na Alemanha Nazista durante o Terceiro Reich.
É especialmente interessante olharmos para o paradoxo criado entre a arquitetura de destruição engendrada por Adolf Hitler e seus asseclas em contraposição ao juramento de Hipócrates: “Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém”. Como se sabe, não foi o que aconteceu.

[CINESE]: Como a Medicina contribuiu para a desumanização da época?

[JOÃO PAULO VANI]: De acordo com a “Enciclopédia do Holocausto”, organizada pelo Memorial do Holocausto dos Estados Unidos (USHMM, sigla em inglês), localizado em Washington, as experiências nazistas não apenas foram cruéis, foram muitas vezes mortais, e aplicadas em milhares de prisioneiros dos campos de concentração.
Para os estudiosos do USHMM, os experimentos médicos do Terceiro Reich com as cobaias humanas podem ser divididos em três grandes grupos:
a) experiências que buscavam facilitar a sobrevivência dos militares do Eixo, cujo objetivo era mapear os limites da capacidade humana em relação à altas altitudes, testes de congelamento para checar quanto um organismo pode suportar a hipotermia, e testes com ingestão de água salgada, foram realizados especialmente no campo de Dachau;
b) experiências para o desenvolvimento e teste de medicamentos e tratamento para ferimentos e enfermidades: nesse grupo, as cobaias humanas eram infectadas com tuberculose, malária, tifo, febre tifoide, febre amarela e hepatite infecciosa, com o objetivo de analisar as reações dos pacientes e os limites do corpo, além disso, muitos ferimentos eram causados nos pacientes, com cortes e fraturas e testes de enxertos ósseos, procedimentos registrados nos campos de Sachsenhausen, Dachau, Natzweiler, Buchenwald e Neuengamme;
c) experiências médicas que “buscavam aprofundar os princípios raciais e ideológicos da visão nazista”, são consideradas as mais desumanas das experiências, coordenadas pelo médico Josef Menguele e realizadas no campo de Auschwitz.
Menguele mereceu um capítulo especial na História do Holocausto justamente pelas atrocidades que fez, travestidas de “ciência médica”, e que envolveram crianças, gêmeos, ciganos e judeus. É fundamental que se destaque aqui, que os experimentos com base racial e ideológica foram o alicerce da Eugenia Nazista, que por sua vez, foram uma espécie de “evolução” da Arianização.

[CINESE]: Há então outra atrocidade que a ambição médica apoiou?

[JOÃO PAULO VANI]: Sim. A Arianização foi um processo político-econômico que tinha como objetivo a expropriação de propriedades e empresas de não-arianos, com a meta de retirar os judeus da vida econômica da Alemanha Nazista e dos territórios por ela controlados. O passo seguinte, chamado de Eugenia Nazista, envolve a purificação da raça ariana, que inicialmente marcou os indivíduos indignos de viver – judeus, ciganos, homossexuais, deficientes, negros – perpetrando milhões de mortes e registrando cerca de 400 mil esterilizações, de modo a evitar a procriação das raças não-arianas. Assim, durante as experiências de esterilização, “realizadas principalmente em Auschwitz e Ravensbrueck, os “cientistas médicos” testaram diversos métodos, com o objetivo de desenvolver um procedimento eficaz e barato de esterilização em massa de judeus, ciganos, e outros grupos considerados pelos nazistas como racial ou geneticamente indesejáveis”.

[CINESE]: João Paulo, que recado podemos levar desse dia e dessa experiência histórica?

[JOÃO PAULO VANI]: Ainda que o tema seja repugnante, é necessário que as atrocidades do Nazismo sejam sempre estudadas e lembradas, não apenas no 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, e não apenas pelas segunda e terceira gerações de judeus, mas em todos os dias do ano, por todos aqueles que possuem o mínimo de consciência.

[CINESE]: A Cinese gostaria de deixar um grande agradecimento ao João Paulo Vani, que contribuiu para esse momento de reflexão. O bom profissional é aquele que transcende ao conteúdo teórico, com empenho e carinho. Obrigada por nos lembrar da importância de termos consciência de sermos bons profissionais, nos desviando da ambição excessiva e preconceito desumano em qualquer área de atuação.

Para saber mais dessa história, acesse: https://www.facebook.com/jpvanioficial/photos/a.157378614680093.1073741828.140787053005916/421891691562116/

O Holocausto e a Medicina - João Paulo Vani