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Livro mostra a trajetória de Gerald Thomas a partir dos textos de suas peças

Obra traz ensaios de especialistas

RIO – Bem antes de Gerald Thomas tornar-se a figura midiática que se vale da imprensa e dos canais digitais para comentar o mundo, sua obra já havia se ocupado de todos os temas que hoje esquentam os debates nas redes sociais — vida, morte, arte, pulsões sexuais, guerra, holocausto, política internacional, árabes e judeus, Brasil, terrorismo, guerras culturais, polarização política, multiculturalismo.

Grande parte dessa original e abrangente obra do dramaturgo e encenador está finalmente reunida no recém-lançado “Um circo de rins e fígados — O teatro de Gerald Thomas” (Sesc Edições), livro que proporciona ótima oportunidade de reavaliar, com a distância do tempo, uma das produções mais criativas do teatro brasileiro.

Obras como a de Thomas nascem do furioso desejo do artista inovador de superar a sombra e a influência de seus predecessores, frequentemente causando assombro ao dizer impertinências sem pedir licença. Essa é uma das constatações que emergem do livro organizado por Adriana Maciel, reunindo 24 textos teatrais entre suas 87 peças encenadas ao longo de 45 anos. Críticas publicadas à época e ensaios assinados por Danilo Santos de Miranda (que apresenta o livro), Dirceu Alves Jr. e Flora Süssekind completam o volume.

Do conjunto de textos, dispostos em ordem cronológica, é possível resgatar as circunstâncias nas quais Thomas tornou-se uma figura central no cenário nacional. Também é possível entender o tamanho do impacto das obras do irlandês Samuel Beckett e do tcheco Franz Kafka em seu trabalho.

O autor tinha 19 anos quando escreveu “Diary of a play”, breve texto que abre o livro, uma espécie de solilóquio sobre a criação artística, tema recorrente em seu trabalho. É da época em que conviveu com Hélio Oiticica, artista de quem Thomas diz ter recebido grande influência. Pouco tempo depois, mudou-se para Londres e, depois, Nova York, cidade que adotou para viver.

Na década de 1980, iniciou a carreira no circuito alternativo nova-iorquino. No La MaMa Experimental Theater Club dirigiu o ator Julian Beck em uma adaptação de textos de Beckett.

“A peça é sobre um homem que está morrendo e ouvindo, simultaneamente, seu passado em três vidas diferentes. Julian estava morrendo de câncer. Essa situação marcou Gerald profundamente”, explica Adriana Maciel no prefácio.

Provocações no palco

Àquela altura, o teatro brasileiro vivia um estado de hibernação criativa pós-ditadura. Em 1985, o jovem Thomas tinha uma atitude desafiadora quando chegou ao Rio para encenar “Quatro vezes Beckett” — com brilhantes atuações de Sergio Britto, Ítalo Rossi e Rubens Corrêa —e deixar perplexa uma plateia desacostumada à transgressão. Neste momento nasceu a persona que se tornaria conhecida, o enfant terrible com jeitão de pop star que angariou adoração de uns e antipatia de outros.

“Com ‘Quatro vezes Beckett’, Gerald Thomas mostrou a estagnação da cena brasileira naquele momento de abertura política, e o povo não gostou muito de enxergar isso. Muitos devem ter se sentido como os índios diante do reflexo dos espelhinhos oferecidos pelos colonizadores”, afirma o jornalista Dirceu Alves Jr. no ensaio.

Seguiram-se as montagens de “Quartett”, de Heiner Müller, com Tônia Carrero, e o texto autoral “Carmen com filtro”, seguido pela tragédia grega concretista “Eletra com Creta”.

A glória veio no início dos anos 1990 com “Trilogia Kafka”, “M.O.R.T.E.” e “The flash and crash days”, que tinha Fernanda Montenegro dividindo o palco com a filha, Fernanda Torres. Depois vieram “Unglauber”, “Nowhere man” e “Ventriloquist”, escrita em 1999, num momento em que a internet comercial engatinhava. Mais tarde, em 2005, fez sucesso de público e crítica a peça “Um circo de rins e fígados”, escrita para Marco Nanini.

— Gerald tratou da polifonia e do excesso de informação capazes de transformar as pessoas em seres que reproduzem discursos alheios sem filtro ou interpretação própria. E nem se imaginava, na virada do século, que um dia existiriam as redes sociais —pondera Alves Jr.

Alguém pode argumentar que o teatro há muito deixou de ser o espaço em que se travam as discussões mais candentes do nosso tempo. Mas a essência do trabalho de Gerald Thomas, vista em retrospectiva, preserva assustadora atualidade.

Entrevista

No Brasil para o lançamento do livro que reúne seus textos, Gerald Thomas, em entrevista ao GLOBO, fala do passado mas também de seus novos projetos. Ele estreia peça “sobre atriz verborrágica” em março e escreve um diálogo entre Rembrandt e Bispo do Rosário.

Qual a importância deste livro para as gerações que desconhecem a sua obra?

Sou suspeito para dizer. Vivi tudo aquilo e me lembro dos cheiros, dos temores, das situações, de onde estava. Não sei se uma pessoa que vai ler o texto pela primeira vez conseguirá apreender o sentido original da peça. Quando se tira o contexto da encenação, o texto se transforma em outra coisa. Além disso, não sou escritor de literatura, sou dramaturgo. Quando escrevo estou pensando em todas as situações — no sentido wagneriano de obra de arte total — na encenação, na luz. O texto é feito para os atores.

O texto evolui muito desde a concepção até a última encenação?

Muito. No livro, o texto publicado de “Nowhere man” é a primeira versão, muito diferente da obra final. O texto vai sendo ajustado o tempo todo durante os ensaios. Em “O império das meias verdades” havia uma cena inicial de nove minutos com a Fernanda Torres. No final da temporada essa mesma cena tinha 45 minutos.

Aos 65 anos, com uma carreira consolidada, como o senhor vê o fato de ter alcançado o sucesso tão cedo?

Aprendi sobre a vida real estudando História no British Museum. E, quando você aprende sobre a vida real, sabe que tem apenas alguns pontos altos, momentos de grandes conquistas. Jamais poderia imaginar que depois do grande êxito de “Ventriloquist”, que estreou em 1999, fosse ainda poder desfrutar do sucesso de “Um circo de rins e fígados”, em 2005. Mas ainda vou surpreender (risos).

Quando se analisa a biografia dos grandes pensadores, o auge da produção intelectual ocorre por volta dos 30 anos.

Sim, é uma coisa hormonal, há uma competição natural por sexo e reconhecimento. Depois há um período natural de acomodação. Mas a medicina mudou muito (risos). Eu me inspiro nos exemplos de Pablo Picasso e Pablo Casals, criadores longevos que tiveram filhos bem mais velhos. Dependo da medicina moderna e da ginástica, que ajuda a produzir hormônios e endorfina natural (risos).

Qual será o seu próximo projeto?

Estou preparando “Gastrointestinal prayer”, um solo com a atriz Lotte Andersen que estreia em Copenhague em março do ano que vem. É sobre uma atriz muito verborrágica que está sentada à mesa num restaurante de carnes de caça, observando as cabeças de animais empalhados ao redor enquanto fala sobre Deus. Também estou escrevendo algo inspirado em um hipotético diálogo entre Rembrandt e a Arthur Bispo do Rosário.

Fonte: O Globo

Livro mostra a trajetória de Gerald Thomas a partir dos textos de suas peças - João Paulo Vani