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Um ano de dores e amadurecimento

Nas escolas de Ensino Infantil e Ensino Fundamental I, o atraso de conteúdos parece ser um problema muito pequeno quando comparado à ausência de afetos entre as crianças, que tiveram um ano todinho de suas infâncias roubado

Há um ano a descoberta da Covid-19 trouxe uma necessidade de adequação de caráter emergencial, da qual poderia depender nossa sobrevivência. E como era de se esperar, essa mudança sem precedentes nos fez rever comportamentos, crenças, valores e examinar a fundo nosso propósito nesse mundo. Fomos levados a um novo amadurecimento.

Desde então, vivemos tempos difíceis. Nossas vidas familiar e social foram afetadas pelo distanciamento forçado, ausência de abraços e sorrisos mediados por telas; o ambiente de trabalho foi alterado, e o emprego dos sonhos se revelou um pouco mais real – e menos tentador – que em nossos devaneios: em nome da produtividade, a nova rotina em casa exigiu a ampliação da carga horária de modo irracional, e muitos estão trabalhando sete dias por semana, em horários nada saudáveis, com demandas chegando por todos os canais eletrônicos possíveis.

Nas escolas de Ensino Infantil e Ensino Fundamental I, o atraso de conteúdos parece ser um problema muito pequeno quando comparado à ausência de afetos entre as crianças, que tiveram um ano todinho de suas infâncias roubado.

Entretanto, fomos obrigados a aceitar essas novas regras: pessoas que amamos tornaram-se ausentes; pessoas que admiramos partiram e não pudemos nos despedir. A saúde física foi prejudicada: alguns ganharam peso, outros perderam o condicionamento; a saúde emocional revelou-se frágil, traiçoeira, abalando a produtividade, a concentração, a paciência. Nos tornamos menos tolerantes.

Além disso, alguns setores não conseguiram se adequar à rotina remota, pois o negócio em si dependente da presença das pessoas, como nas áreas de eventos e entretenimento. E, não bastassem as dificuldades impostas, passamos a testemunhar embates políticos em busca de holofotes: muita distração, nenhum resultado, como em um Big Brother do Poder.

Não fosse suficiente vivermos os enormes desafios trazidos pela pandemia e seus desdobramentos, “o tempo não para”: famílias choram a iminência da partida de seus queridos, que silenciosamente, padecem dos mais diversos males; outras, vivem a expectativa da recuperação de pacientes acamados; outras ainda, sofrem por aqueles que já não respondem por si ou cuja memória fora roubada, deixando de reconhecer filhos e netos e amigos. E este é apenas um pequeno recorte.

Diante da dura realidade da vida “não Instagramável”, e ao fim do primeiro ciclo da “Era Pós-Covid”, aparentemente estamos vivendo em um mundo desequilibrado, com mais violência, homicídios, feminicídios, suicídios; os preconceitos racial e de gênero continuam fazendo vítimas em larga escala; estelionatários surgem todos os dias com novos golpes, aproveitando-se da vulnerabilidade de todos. Com a economia do país fragilizada, e o desemprego em alta, volta a faltar comida na mesa do brasileiro.

Com tantas dores, por quais caminhos fortaleceremos nossa aprendizagem no mundo pós-pandemia? Como poderemos nos reinventar e alcançar o equilíbrio? Seguramente não tenho as respostas, mas vejo a evolução do ser humano vinculada à reflexão.

Fonte: Diário da Região

Um ano de dores e amadurecimento - Prof. Dr. João Paulo Vani