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Mais que uma fria estatística

A falta de sensibilidade e humanidade que temos observado todos os dias em posts e comentários nas redes sociais devem seriamente nos preocupar, pois além de desconsiderar a efemeridade da vida, minimizam o mar de desolação que nossa nação vem vivendo

Neste momento em que escrevo, veículos de imprensa dão conta de que a COVID-19 já vitimou 345.025 brasileiros, dos quais, 4.249 apenas nas últimas 24 horas. Esses dados alarmantes mostram que a situação em nosso país se tornou insustentável.

Um portal de notícias revela que, de acordo com dados preliminares, a população da região sudeste encolheu durante a primeira semana de abril, diante de 13.998 nascimentos e 15.967 óbitos. Este parece ser um fato inédito. Jornalistas de todo o país noticiam que, caso seja mantida a atual média de vacinação, a crise sanitária em solo tupiniquim deve durar mais um ano. Um ano que talvez a economia não tenha, nem o pequeno empreendedor, nem as crianças, os vestibulandos e os formandos, e principalmente, nem os exauridos profissionais de saúde.

Um problema da situação atual é a dificuldade de assimilação diante de tantas mortes, tantos colapsos – a cada dia, um novo problema noticiado, pois faltam oxigênio, sedativo, mão-de-obra, e até vaga para sepultamento – além da crise moral, para aqueles que o que falta é amor ao próximo.

A falta de sensibilidade e humanidade que temos observado todos os dias em posts e comentários nas redes sociais, ou em mensagens que chegam nos grupos de WhatsApp, devem seriamente nos preocupar, pois além de desconsiderar a efemeridade da vida, minimizam o mar de desolação que nossa nação vem vivendo. E muitas vezes esse discurso é disseminado apenas para defender um ponto de vista político ou ideológico.

E, no anseio de tornar menos abstrato o imenso volume de perdas, temos nos deparado com comparações descabidas: análises consideram o número diário de mortes – a cada dia um novo recorde – com outras tragédias de nossa história; ou ainda pior. Já me deparei com postagens fazendo as contas e especulando, se morrem tantos brasileiros todos os dias, então está morrendo uma média maior que na guerra, ou em genocídios, ou… ou… É preciso dar um basta!

Se Nietzsche abalou as estruturas da sociedade ao afirmar em “A Gaia da Ciência” que Deus estava morto, Dostoievski foi além, e ao dar voz a Ivan Karamazov determina: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. E nessa vibração de permissividade e negativismo, temos visto histórias e lembranças serem soterradas por números, frios e impessoais. Não podemos mais aceitar o apagamento de tantas histórias.

O valor de uma vida humana jamais poderá ser comparado ao valor de outra vida humana. As perdas em tragédias anunciadas, bélicas ou políticas não podem, nem devem, ser comparadas com as perdas diante da crise sanitária ora vivida. Nenhuma comparação é justa, nem honesta; nenhuma dor é semelhante.

Despeço-me com tristeza, e me permito homenagear três vítimas recentes da COVID-19: o querido professor Padovez, o competente colega Hunfrey, e o admirável livreiro “Marcão Brado”, gente com rosto, voz, histórias e sonhos, cujas existências foram prematuramente ceifadas, e que como milhares de outras vítimas, sempre serão muito mais que uma fria estatística.

Fonte: Jornal Diário da Região

Mais que uma fria estatística - Prof. Dr. João Paulo Vani