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Um Novo Brasil

Sabemos que as crises sanitária e econômica nos fizeram duvidar de nós mesmos, do surgimento de um novo Brasil, próspero, com oportunidades de emprego, com salários dignos e escolas de qualidade; um novo país, com saúde, segurança e moeda forte

Nesta semana celebramos o descobrimento do Brasil em 22 de abril. Como tantos outros fatos históricos, a chegada dos portugueses em solo tupiniquim é envolta em mistérios e discussões. De documentos resta-nos apenas a bela e poética carta de Pero Vaz de Caminha, que sobre a terra descreve: “Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”.

O documento não esconde o desejo da Coroa Portuguesa em explorar nossas terras e cita a palavra “ouro” por nove vezes e “prata” por três vezes. E como é triste pensar que, cerca de 300 anos após a carta de Caminha, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, tido como o membro mais humilde da conspiração batizada de Inconfidência Mineira, emblemático personagem de nossa história, é rememorado em 21 de abril, dia de seu enforcamento; ele foi o único condenado à morte em um julgamento que revelou o imenso poder da Coroa perante a Colônia, e também, a delação premiada de Joaquim Silvério dos Reis, que teve suas dívidas perdoadas em troca de informações capazes de minar o movimento que questionava a opressão econômica de Portugal sobre a Capitania de Minas Gerais.

Os ensinamentos deixados pela Inconfidência Mineira de que somente os mais pobres são severamente punidos; de que aqueles capazes de tirar vantagem pessoal, sempre o farão; de que um corpo despedaçado e uma cabeça exposta em praça pública são inesquecíveis avisos para que o povo se cale e não ouse – jamais – confrontar os poderosos são claros. E essa barbárie foi duramente internalizada por nossa gente, que nos dias atuais ainda sofre com esse trauma atávico.

Também nessa semana, nada tivemos a comemorar em 19 de abril, Dia do Índio. Pero Vaz de Caminha os descreve com beleza ímpar: “A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara”. Tanto tempo se passou e os índios continuam sendo tratados como inimigos da nação pelo simples fato de – ainda – reivindicarem o mínimo: a manutenção de suas culturas e identidades. Felizmente, o índio de Caetano, impávido que nem Muhammad Ali, ainda não veio em sua estrela colorida e brilhante, o que nos conforta em saber que nossa última não indígena foi fora exterminada, ainda que muitas almas tenham sido entregues a troco de nada nos leilões da história, lembrados pelos três Legionários.

Sabemos que o Brasil não é o éden reencontrado de Pero Vaz de Caminha e sua “Carta”, ou de Stefan Zweig, com seu “Brasil: o país do futuro”. Sabemos que as crises sanitária e econômica nos fizeram duvidar de nós mesmos, do surgimento de um novo Brasil, próspero, com oportunidades de emprego, com salários dignos e escolas de qualidade; um novo país, com saúde, segurança e moeda forte.

Será que conseguiremos? Creio que sim, mas para isso, precisamos começar a olhar para trás e aprender com os diversos Brasis extintos e seus personagens.

Fonte: Diário da Região

Um Novo Brasil - Prof. Dr. João Paulo Vani