Entre manuscritos, leituras e revisões, um editor reflete sobre a crescente confusão entre complexidade literária e afetação intelectual — e sobre o esgotamento provocado por textos que parecem mais preocupados em parecer profundos do que em dizer algo verdadeiro.
Há um ponto delicado — e talvez um pouco melancólico — em quem trabalha com livros por muito tempo: chega uma hora em que o cansaço não vem da leitura, mas do excesso de pose em torno dela. Especialmente da escrita que parece escrita para ser admirada antes de ser compreendida.
Não falo aqui da literatura difícil. Há livros difíceis porque o mundo é difícil. Porque a linguagem, às vezes, não dá conta da experiência humana sem alguma ruptura. Porque certas dores, certos deslocamentos e certas ideias exigem complexidade formal. O problema não está na densidade. Está no artifício transformado em valor moral.
Como editor, aprendi a desconfiar de textos que parecem pedir licença apenas para exibir inteligência. Há uma diferença profunda entre uma escrita rigorosa e uma escrita vaidosa. A primeira trabalha a linguagem como quem tenta alcançar algo. A segunda usa a linguagem como biombo. Em vez de revelar, esconde. Em vez de construir tensão, constrói fumaça.
Talvez por isso eu me sinta cada vez mais cansado de determinados “escritores” — e uso as aspas não como insulto, mas como sintoma de uma personagem contemporânea. Há hoje uma espécie de profissionalização da afetação literária. Frases excessivamente ornamentadas, metáforas que parecem disputar atenção entre si, referências lançadas quase como senha de pertencimento intelectual. Em muitos casos, a impressão não é de que alguém tenha algo a dizer, mas de que precise desesperadamente parecer alguém que teria.
E o curioso é que essa teatralidade costuma vir acompanhada de arrogância. Como se a obscuridade fosse automaticamente sinal de profundidade. Como se o leitor que não compreende determinado texto fosse sempre insuficiente — nunca o texto mal resolvido. Existe, em certos círculos literários, uma romantização do incompreensível que acaba funcionando como blindagem crítica: se ninguém entende, ninguém pode contestar.
Mas a literatura nunca precisou disso para existir.
Os grandes escritores frequentemente escreveram com uma precisão quase brutal. Kafka não era confuso; era angustiantemente claro. A Metamorfose não se sustenta por obscuridade, mas pela nitidez perturbadora de sua metáfora. Clarice Lispector, mesmo em sua vertigem, tinha uma limpidez emocional rara. Graciliano Ramos parecia passar cada frase por uma peneira ética antes de deixá-la existir. Mesmo autores de construção sofisticada jamais confundiram densidade com empilhamento ornamental.
Talvez porque a boa literatura não dependa da dificuldade da frase, mas da intensidade da percepção.
Como editor, vejo muitos originais. E uma das coisas mais tristes é perceber quantos textos chegam sufocados pela tentativa de parecer literatura antes mesmo de se tornarem experiência humana. Há autores que escrevem como quem monta uma vitrine conceitual. O texto deixa de respirar. Tudo soa excessivamente consciente de si. Excessivamente performático.
E talvez isso aconteça porque vivemos uma época em que parecer inteligente se tornou mais importante do que comunicar alguma verdade sensível. A escrita, em certos ambientes, virou um exercício de posicionamento estético e social. Não basta escrever; é preciso demonstrar repertório, construir uma persona, ocupar um lugar simbólico. O problema é que, nesse processo, muita gente desaprende algo fundamental: ouvir o próprio texto.
Um texto ruim não se torna melhor porque utiliza palavras raras. Assim como um texto simples não é menor por ser acessível. Há simplicidades que exigem décadas de maturação. Escrever sem excessos talvez seja uma das formas mais difíceis de honestidade.
E digo isso sem qualquer pretensão de superioridade. Até porque todo editor conhece a própria limitação: convivemos diariamente com textos melhores do que os nossos. O olhar editorial não nasce da convicção de grandeza, mas da repetição da leitura. Da percepção de ritmo. Da fadiga provocada por certos vícios recorrentes.
No fundo, talvez meu cansaço não seja com a escrita difícil. Seja com o fetiche da escrita inacessível. Com a ideia, cada vez mais comum, de que um texto se torna automaticamente mais relevante quanto menos gente consegue atravessá-lo. Há autores que parecem escrever para uma espécie de tribunal imaginário de validação intelectual, e não para estabelecer qualquer experiência de linguagem verdadeiramente humana. Depois de muitos manuscritos, começamos a perceber quando a complexidade nasce de uma necessidade estética real — e quando ela funciona apenas como ornamento, blindagem ou mecanismo de distinção.
Porque a literatura pode até ser complexa. Mas nunca deveria ser vazia atrás de uma máscara de complexidade.
