16 maio 2026

O simulacro da permanência

Entre estatutos engessados, ritos preservados e incapacidade de renovação, muitas instituições culturais parecem esquecer que memória não basta para garantir permanência.

Theodor Adorno e Max Horkheimer já advertiam, em Dialética do Esclarecimento, que nenhuma instituição cultural permanece viva apenas pela reverência ao próprio passado. A cultura, quando perde sua capacidade de circulação e interlocução social, corre o risco de transformar-se em mera liturgia de si mesma.

Talvez esse seja um dos grandes desafios das academias literárias contemporâneas.

Não basta preservar cadeiras, ritos, solenidades e estatutos concebidos para um mundo que já não existe. Não basta repetir formatos editoriais herdados do século passado, esperando que leitores, autores e a própria comunidade cultural continuem respondendo da mesma maneira. A tradição, quando não dialoga com o presente, deixa de ser patrimônio e passa a ser obstáculo.

Stuart Hall lembrava que a cultura é um campo permanente de disputas, deslocamentos e renegociações de sentido. Instituições que não compreendem isso tendem a transformar-se em estruturas autorreferentes: falam para si mesmas, premiam a si mesmas, publicam para si mesmas e, aos poucos, deixam de exercer qualquer centralidade cultural efetiva.

Enquanto isso, até mesmo instituições historicamente associadas ao conservadorismo simbólico, como a Academia Brasileira de Letras, percebem a necessidade de renovação de linguagem, alcance e mecanismos de legitimação pública, lançando novos prêmios, ampliando interlocuções e buscando formas contemporâneas de circulação literária. [leia aqui o artigo completo]

O problema não está apenas em uma revista institucional que não circula ou vende pouco; em concursos ou projetos de antologia que não mobilizam público, ou ainda, em déficits financeiros ocasionais. Esses são apenas sintomas. O problema real aparece quando a instituição perde a capacidade de formular para quem existe, qual função social exerce e que tipo de presença cultural deseja ter no século XXI.

Porque uma academia que existe apenas para conservar sua própria engrenagem burocrática — estatutos engessados, práticas arcaicas, centralizações improdutivas e resistência sistemática à atualização — deixa de cumprir função cultural. Torna-se um fim em si mesma.

E instituições culturais raramente morrem de maneira abrupta. Morrem lentamente, na perda progressiva de relevância, na incapacidade de formar novos leitores, de atrair novas vozes, de dialogar com a cidade, de compreender os meios digitais, de produzir pertencimento e circulação real.

A memória cultural é indispensável. Mas memória sem renovação não produz continuidade real: produz apenas um simulacro daquilo que imagina preservar.

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